Essa noite dormi um assassino.

 

O Mundo é Cão.  Ontem, voltando para casa, atropelei um cachorro preto. Não poderia ter feito isso. O pobre cachorro preto de mancha amarelada no peito, sucumbiu em espasmos e grunhidos. Eu o confortei em seus minutos finais e orei o Nam-Myoho-Rengue-Kyo, a única oração que aprendi na vida. Relembrando o dia, lembrei ter visto outro cachorro, pequenino, desses que não dão despesas em comida e que certamente não emporcalham a casa como os cachorros grandes, estirado na rua, abandonado em seu fatídico fim. Torci o pescoço quando passei por ele e ainda soltei: Pobrezinho, tentou atravessar a BR e não chegou ao outro lado. Ou então, podia ser que estivesse faminto e procurasse encontrar de onde vinha aquele cheiro delicioso de ensopado. Morreu. Sozinho, seu pequeno corpo lá, inerte. Hoje, quando voltar para casa, talvéz o encontre lá ainda, apodrecendo ao relento.  Pobre cachorro, por que não correram as ambulâncias, os bombeiros a socorrer o pobre animal desfalecido. Ok, morreu, é só um cachorro, deixem aprodrecer ao relento.  Deveriam deixar a mim quando morrer, pois já menti e fiz tanto mal quanto aquele cachorro faria em dez mil vidas. Mesmo assim, não é dado a ele o direito de um enterro digno. Ahhh, balela, que enterro que nada, deixem o animal apodrecer.  Os animais que nos lambem as feridas, que comem nossos restos de comida, que nos abanam o rabo quando à casa retornamos.

Morreu o cachorro preto. Eu o coloquei no banco de trás do carro e dirigi até a praia do Campeche. Lá, com as mãos, abri uma cova na areia macia e depositei seu corpo. Orei mais uma vez o Nam-Myoho-Rengue-Kyo e fui embora. O rádio do carro tocava uma música antiga, o vento do mar soprava sobre a ponte. Entrei na BR e passei pelo viaduto. O pobrezinho ainda estava lá. Sozinho. Dormi  um assassino. O Mundo é cão.

 

(Alessandro Quadros)

12 12UTC dezembro 12UTC 2008 at 2:39 pm Deixe um comentário

Mundo Cão

O Mundo é Cão e as coisas não são fáceis no mundo cão. The Dog day falou, mas ninguém ouviu. Deu no que deu. Agora, corram que a bisteca fresca some das prateleiras e os preços sobem às alturas, ao alto, e avante. Já não se ouvem os pios dos pássaros que piam nem as cotovias, os rouxinóis nas pradarias, o padeiro na padaria e a morta da pobre Severina.

11 11UTC dezembro 11UTC 2008 at 7:00 pm 2 comentários


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